Gosto de palavrar, deslavrar e, por vezes, até despalavrar.

Palavrar, não como Pessoa, claro, mas brincar com palavras e frases: componho-as e decomponho-as, deixo-as entrelaçar-se, esticar e encolher, torcer-se ou desaparecer, até encontrarem a sua melhor versão.

Chamo-me Susel e vivo em Mértola, no Alentejo.

Tornei-me professora bibliotecária para estar mais perto dos livros, da leitura e dos mais novos.

Gosto de viajar, de entrar em livrarias como quem descobre sítios secretos e de observar o que me rodeia. Cresci a ouvir histórias e fiquei com o hábito de reparar nos pormenores: frases apanhadas no ar, comentários inesperados e pequenos detalhes que quase passam despercebidos.

As ideias aparecem sem avisar. Algumas passam, outras insistem até eu as escrever e é assim que começam as histórias.

Mas sou também bastante distraída. Muitas vezes, as chaves de casa ou do carro desaparecem e vão parar aos sítios mais improváveis ou, quem sabe, a alguma boa ideia.

Escrevo sobre memórias, emoções, coisas pequenas ou acontecimentos que até podem parecer não ser nada, mas podem significar muito.

  • Desde que me lembro, sempre gostei de escrever, de brincar com papéis, lápis e canetas. Uma vez, numas arrumações, encontrei um pequeno caderno que a minha mãe tinha guardado, cheio de rabiscos contínuos: ziguezagues, ondinhas e pequenas espirais, a parecerem linhas, umas por baixo das outras.

    Mais tarde, comecei a copiar pequenos textos de que gostava e queria guardar, ao mesmo tempo que escrevia também os meus, mas nunca os mostrava a ninguém.

  • Muito tarde! Só depois dos vinte anos, quando participei, durante dois anos consecutivos, num concurso de escrita intitulado “Descobre a tua Terra”, integrado nas comemorações do V Centenário dos Descobrimentos Portugueses.

    Os prémios eram muito bons e a perspetiva de os poder ganhar deu-me coragem para enviar os meus textos. Em ambos os anos, ganhei o primeiro prémio, o que reforçou o meu gosto pela escrita.

    Um desses textos deu origem ao meu primeiro livro, Conversa com o Passado, editado pela Câmara Municipal de Castro Marim.

  • Depois de ter uma ideia, preciso de várias coisas para escrever: computador, bloco de notas, lápis e borracha. Escrevo no computador, mas gosto de ter sempre ao lado um pequeno bloco onde esboço, a lápis, o plano do texto e vou registando novas ideias.

    Apago, substituo, reorganizo. Faço setas, rodeio palavras, marco o que já está integrado, rabisco enquanto penso.

    Não consigo escrever sem este contacto físico com o papel e o lápis. Talvez por ter nascido numa época em que não havia computadores.

  • As ideias surgem quando menos esperamos, no nosso dia a dia. Um comentário ou uma frase que ouvimos de alguém desconhecido que passou por nós, uma notícia que lemos, algo que nos aconteceu ou que vimos, um sonho que tivemos…

    Tudo pode ser uma fonte de inspiração. Quando isso acontece, costumo anotar logo num pequeno bloco de notas que trago comigo ou, então, registo no telemóvel.

    Adoro o processo criativo da escrita, desde a ideia até ao momento em que digo: “Terminei.” A ideia não me larga e vai tomando forma até chegar ao papel e começar a expandir-se, como tinta que se derrama e espalha por uma superfície. Começo pelo título, porque não consigo escrever sem um, rascunho a lápis um plano, escrevo, reescrevo, ponho parágrafos de lado, vou buscá-los, apago-os ou mudo-os de lugar, substituo palavras, altero o título, tiro dúvidas, leio e releio, em silêncio e em voz alta, e, finalmente, guardo o texto. Depois volto a ele e passo tudo a pente fino, para que nada fique fora do sítio, nem a mais nem a menos. Uma trabalheira, até ao suspiro final.

    Gosto do silêncio, do sossego e da paz da escrita, mas também da sua desinquietação solitária, até chegar ao texto final. Gosto disso e do aconchego da minha cadela aos meus pés, enquanto escrevo.

  • Gosto de escrever para provocar emoções, questionar, inquietar ou fazer sorrir, a partir de personagens inesperadas, aventuras e desventuras, fantásticas ou do quotidiano.

    Muitas vezes, quando escrevo, gosto de reavivar memórias, tradições e de remexer em lembranças e encantos de outros tempos, para que não se percam. Ou seja, gosto de dar voz ao que está esquecido ou abandonado.

    Também gosto de aventuras, da natureza e de personagens reais que possam ser inspiradoras.

  • Já escrevi a pensar no público adulto, mas os destinatários das minhas palavras são sobretudo as crianças e os jovens.

    Acho que há, de certo modo, maior liberdade criativa quando escrevemos para os mais novos.

    Para mim, a escrita é uma forma de me reencontrar. É a minha melhor forma de expressão, de deixar um pouco de mim. Há salpicos de mim naquilo que escrevo que, por vezes, só muito tempo depois consigo identificar: no nome de uma personagem, numa reviravolta da história ou no final que encontrei.

  • Na literatura infantojuvenil, gosto muito de Sophia de Mello Breyner Andresen, António Torrado, Luísa Ducla Soares e, mais recentemente, David Machado e Clara Cunha. Entre autores estrangeiros, destaco Maurice Sendak, Roald Dahl e J. K. Rowling.